Monday, August 01, 2005

MAIS UM TEXTINHO


Após um longo tempo, estou atualizando o blog! Viva! bom, as meninas da faculdade já conhecem esse texto, e como ele não entrou no blog e como o meu está mto desatualizado, decidi colocar esse aqui. Espero que gostem.
Sem título
Chamo isso de melancolia. É...essa coisa estranha, esse sentimento de querer deixar a vida passar, ver que ela não está como você quer e mesmo assim entrar em um estado letárgico de preguiça para mudar as coisas. Resumindo: uma vontade de não fazer nada, de simplesmente ver a vida fluir, correr sem qualquer interferência. Ficar triste com as coisas erradas, mas ser incapaz de mudar. Pois é, é exatamente isso que eu sinto agora. Preguiça de viver.
Por que sinto? Não faço a menor idéia. Talvez porque a mulher que eu amo está lá no quarto, fazendo as malas para ir embora. Não, não, não pense que estamos nos separando em definitivo, que a nossa relação se transformou em um caus completo, brigas intermináveis e porres homéricos. Nada disso. Ela vai somente passar algum tempo longe de mim. Viagens a negócios. E eu, o homem da casa, a pessoa que, pela ordem natural das coisas, deveria acompanhá-la nessa empreitada, estou aqui. Incapaz e impassível, sem dinheiro nem para pagar as contas do mês que vêm. Esse mundo está mesmo invertido.
É, pode rir de mim. Eu não tenho dinheiro. Nem carro. Nem emprego. Perdi quase tudo. Só não a perdi. Mas agora sinto como se ela estivesse escapando pelos meus dedos. Ciúme. Será que ela vai encontrar alguém melhor que eu? Alguém que realmente a mereça? Ela diz que não. Mas talvez sim.
Mas, pensando bem, eu não tenho medo disso. Na verdade, eu não consigo sentir nada em relação a isso, porque a única coisa que me ocupa é essa maldita melancolia. Não consigo mexer um dedo sequer: dedico-me somente a meus pensamentos e a entender esse mundo que não quero mudar.
Ela finalmente sai do quarto. Malas e malas. Eu não consigo nem me mover para ajudá-la. Será que eu estou dopado? Colocaram sonífero na comida daquele restaurante? Não é possível! Nunca me senti assim, tão...impotente. Sempre tive força para trabalhar (até ser despedido), para ganhar o meu dinheiro (até não ter nenhum), para lutar pela mulher que eu amava...até ela ir embora. O olhar que ela dirige a mim diz tudo. Um olhar firme. Sinto-me envergonhado. Não consigo ter a firmeza dela. Tenho somente cacos de mim mesmo.
“Acho”, ela diz, “que chegamos ao momento das despedidas”. Aquilo soou como algo irreversível. Naquele momento eu entendi perfeitamente o que se passava. Eu nunca mais vou vê-la, e recebi essa notícia extraordinariamente bem. Não entendo mais nada. O que se passa em mim? Será que estamos terminando? E eu estou feliz com isso? Mas eu a amo, como posso estar feliz? Pude somente responder “é, eu acho que sim”.
Percebo agora que ela está hesitante. Quer dizer algo, mas tem medo. Medo de que? E imediatamente, a resposta veio: “de me magoar”. Ela olha para mim novamente com o olhar endurecido, e as palavras saem em uma espécie de sussurro, quase inaldível. “Algo me diz que nunca mais vamos nos ver”. Eu concordei, era exatamente o que estava pensando. “Mas quero que saiba”, ela continuou, “que nunca vou esquecer o que aconteceu entre nós”. E eu aceitei com serenidade. Ela se aproximou, me deu um último beijo, mas já sem vida, sem paixão. E foi embora.
A porta se fecha e o mundo cai. Com todo o seu peso e força. Sento-me na poltrona, e vejo meu caderno de poesias. A melancolia só servia para isso mesmo. Escrevo desesperadamente, e a força que ponho no lápis chega a rasgar o papel. Os versos e as rimas transbordam de mim com um a fúria que nem eu mesmo entendo de onde vem e, quando, exausto, paro de escrever, ligo a TV para me distrair.
Noticiário. Um avião. Pane. Algo sobre turbinas. Queda. Todos mortos. Fim de tudo. Meus olhos se voltam para alguma garrafa de um líquido escuro em cima do bar. Havia sido uma despedida imprevista. Uma ida sem volta, exatamente como eles pensaram. E era daquela forma que tinha que terminar. Não em caus completo. Não em brigas intermináveis. Somente em um porre homérico.

2 Comments:

Blogger Paty said...

Milagre!!!!! Finalmente atualizou o blog! Eu gosto desse texto, porque é uma despedida diferente, mesmo sendo a típica separação de casal. Afinal, há um certo ar de profecia, um "bad feeling about this", como se ambos soubessem o que estava para acontecer. Obviamente, essa ídéia só surge depois de ler o desfecho bombástico. Aliás, bela idéia de retomar o "caos completo" e o "porre homérico" no final do texto, fazendo o link com o início!

P.S: O que foi a gente rindo do protagonista exatamente antes da frase "É, pode rir de mim"? :D

August 1, 2005 at 10:27 PM  
Blogger Aline Brandão said...

Eeei, atualiza, moça! >.<"

September 26, 2005 at 3:21 PM  

Post a Comment

<< Home